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Voluntariado educativo: solidariedade também se aprende na escola
15/06/2011 00:00

Poucas atividades têm o poder de ao mesmo tempo melhorar a qualidade da educação, transformar a escola em um ambiente de convivência solidária e preparar o educando para uma participação cidadã. O voluntariado educativo é seguramente uma delas. Consolidar a sua cultura no Brasil, estimulando-o entre os jovens como instrumento para a construção de um País socialmente mais justo, é a missão do Faça Parte – Instituto Brasil Voluntário desde que foi criado, em 2001, no Ano Internacional do Voluntário.

Para ser educativo, é e compromisso sociais. Segundo este conceito, muito difu fundamental que o voluntariado combine a formação escolar com responsabilidade ndido nos EUA e em países vizinhos como a Argentina, mais importante do que o desempenho em si da ação voluntária é a sua articulação com os saberes escolares. Estudiosos do tema consideram que o voluntariado educativo proporciona seis tipos de benefícios específicos a quem os pratica.

O primeiro é de ordem cognitiva. No exercício do trabalho voluntário, sabe-se hoje que um jovem aprende mais e melhor. Do ponto de vista pedagógico, o voluntariado pode enriquecer a abordagem dos chamados temas transversais propostos pela LDB-Lei de Diretrizes e Bases, contribuindo, deste modo, para a apreensão dos conteúdos de diversas disciplinas, na medida em que permite conjugar teoria com uma prática relevante, humanizadora e indutora de mudanças. Ao envolver o jovem, por exemplo, na tarefa de fazer a contabilidade de uma creche, redigir cartas para operários analfabetos, desenvolver uma campanha para uso racional de energia, conhecer um determinado período histórico por meio do relato de idosos ou mesmo propor soluções para o problema dos sem-teto, a prática do voluntariado acaba por fixar melhor respectivamente conhecimentos de Matemática, Português, Ciências, Historia e Geografia. Pesquisa do National Training Lab, Bethel, Maine atesta que ensinar os outros, fazer na prática e discutir em grupo, atividades decorrentes do trabalho voluntário, ampliam significativamente a fixação de conceitos e são, por este motivo, muito mais eficazes do que as tradicionais aulas expositivas, ou mesmo a leitura, os recursos audiovisuais e as demonstrações. O voluntariado educativo renova a escola, reforçando não apenas o seu papel como um espaço de cidadania, cultura e convivência democrática, mas incorporando alguns de seus pressupostos, como orientar para uma aprendizagem vinculada á vida real, formar espíritos críticos, autônomos e criativos, e interagir com a comunidade, a família e as instituições.

O segundo benefício é cívico. O trabalho voluntário convida à participação comunitária. Por essa razão desperta uma consciência de deveres e, mais do que isso, o senso de pertencimento a uma coletividade. Ao tomar parte dos problemas sociais de seu bairro ou cidade, o jovem exercita a reflexão, a análise e a capacidade de solução. Tende, portanto, a se tornar um cidadão pleno, consciente de suas responsabilidades e disposto a mudar, com a sua ação, tudo o que está a volta, a começar pela escola e a comunidade em que mora.

O terceiro benefício é de ordem ética. O voluntariado constitui terreno fértil para a semeadura de valores elevados, como, por exemplo, a solidariedade. O sentimento de interdependência e de reciprocidade, o compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas, não se desenvolvem no plano cognitivo. Representam valores concernentes ao espírito humano que só podem ser modelados a partir de práticas e vivências. Uma das características mais interessantes do trabalho voluntário é que ele transforma tanto quem recebe quanto quem doa, proporcionando crescimento mútuo ao beneficiário e a quem beneficia. Na contramão da lógica individualista que caracteriza o mundo atual, este tipo de prática ensina a valorizar o outro e reconhecer-se nele, a lidar com as diferenças, e a desenvolver relacionamentos mais saudáveis. Bom para uma comunidade escolar, bom para um País.

O quarto e quinto benefícios dizem respeito a conquistas profissionais e pessoais. Há evidências de que, nesses tempos de culto á responsabilidade social, o trabalho voluntário começa a representar uma vantagem comparativa na hora de disputar um estágio ou mesmo um emprego. Muitas empresas admitem adotá-lo como critério de desempate em processos de seleção. E estão escoradas em convicções muito firmes. Para elas, alguém que se dispõe a doar tempo e conhecimento para uma organização social, aprende desde cedo a servir. E gostar de servir, por princípio, constitui um comportamento que pode fazer diferença para quem procura emprego no mercado de serviços. Voluntários são, por natureza, pessoas especiais que trabalham para causas, colocam paixão nas atividades que exercem e, por este motivo, demonstram maior “espírito de militância” quando enxergam na empresa um propósito mais elevado. Acostumados com a escassez de recursos, aprendem a fazer mais com menos, a transformar idéias em ação e a construir pontes em vez de reclamar dos abismos. Proativos, auto-motivados e com iniciativa própria, tendem a sentir mais prazer no trabalho e, como apreciam o contato com pessoas, têm boa capacidade de liderança e responsividade.

O sexto ganho insere-se na dimensão social. Uma boa experiência de voluntariado educativo expande os muros da escola, abrindo-a democraticamente para as pessoas e organizações do entorno. A cultura de paz que ela dissemina, o respeito que evoca e, sobretudo, o espírito associativo que promove emulam um clima de maior confiança no interior de uma comunidade, produzindo relações melhores e, portanto, maior capital social. Verifica-se hoje uma estreita relação entre boas escolas e comunidades com relações mais próximas entre os seus diferentes grupos.

O voluntariado educativo mostra que solidariedade também se aprende na escola.

Milú Villela
Presidente do Instituto Faça Parte
Artigo publicado na Folha de São Paulo em 14 de junho de 2005.


 
   

 
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